Como jornalista, o que há de melhor na cobertura da recente onda de protestos e levantes contra os autocratas é assistir a coisas que a gente jamais imaginou ver – como em Moscou, na semana passada, quando algumas pessoas contrárias à decisão de Vladimir Putin de se reeleger, talvez por mais 12 anos, instalaram uma enorme faixa amarela em cima de um edifício na frente do Kremlin com o rosto de Putin coberto por um grande X, e ao lado as palavras “vá embora Putin” em russo.
A simples ousadia dos protestos e a cólera contra o primeiro-ministro Putin alimentada pela classe média urbana russa, que se sentiu tratada como uma massa de idiotas ao anúncio da troca de cargos entre ele e o presidente Dmitri Medvedev, eram impensáveis há um ano. O fato de os jovens que colocaram a faixa, ao que tudo indica, não terem sido presos, também indica que Putin compreende que sua situação é bastante delicada e não pode criar novos “mártires” que enfureceriam os que protestam contra o governo, novamente reunidos em Moscou no sábado.
O que fará Putin agora? Cumprirá realmente a promessa de permitir o surgimento de novos partidos ou simplesmente deixará que a oposição acabe, dividida e ainda sem um líder nacional de fato? A Rússia de Putin encontra-se numa encruzilhada. Tornou-se de certo modo um país, mas não realmente. A Rússia hoje é de certo modo uma democracia, mas não chega a tanto. É uma espécie de livre mercado, mas não realmente. Criou de certo modo um estado de direito para proteger a economia, mas nem tanto. É uma espécie de país europeu, mas não realmente. Tem uma imprensa de certo modo livre, mas nem tanto. Sua Guerra Fria com os EUA de certo modo acabou, mas não totalmente. Está tentando tornar-se alguma coisa mais do que um petro-Estado, mas não realmente.
O próprio Putin é em grande parte responsável pelo yin e pelo yang.
Quando se tornou presidente, em 2000, a Rússia não estava “de certo modo” com problemas. Estava com problemas bastante concretos – e caminhava para o abismo. Com punho de ferro, Putin restabeleceu a ordem e consolidou o Estado. Entretanto, ele não foi cimentado por verdadeiras reformas políticas e econômicas, mas pelo aumento dos preços e das receitas petrolíferas. No entanto, muitos russos agradeceram a ele e continuam agradecendo.
Ao longo do processo, Putin criou uma nova camarilha rica e corrupta ao seu redor, mas também garantiu que parte da riqueza do petróleo e dos minérios russos fosse transferida para as grandes cidades, criando uma pequena classe média urbana que agora exige a liberdade de influir no próprio futuro. Mas Putin está num beco sem saída. Tirou a Rússia da beira do abismo, mas não consegue empreender as mudanças nos planos político, econômico e educacional necessárias para torná-la um moderno país europeu.
E a Rússia tem condições para tanto. Sob a liderança de Putin? Eu e a chefe da sucursal do New York Times em Moscou, Ellen Barry, conversamos na quinta-feira com o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, na Casa Branca russa. Quando saí do encontro, eu estava incerto.
Todos esses protestos urbanos, disse Peskov, são um sinal de que o crescimento econômico avançou em relação às reformas políticas, e isso foi resolvido: “Há dez anos, não tínhamos uma classe média. Essas pessoas pensavam como poderiam comprar um carro, comprar um apartamento, abrir uma conta num banco, pagar a educação dos filhos numa escola privada e assim por diante. Agora, elas já têm tudo isso. A parte interessante da história é que elas querem ter uma mais participação na vida política”.
Parece razoável. Mas e a sugestão de Putin de que os protestos seriam parte de um complô dos EUA para enfraquecer a ele e à Rússia? Peskov acredita realmente nisso? “Não acredito: eu sei disso”, afirmou. O dinheiro para desestabilizar a Rússia chega “de Washington pelos canais oficiais e pelos não oficiais. Para financiar diferentes organizações… Para provocar a situação. Não estamos falando isso apenas por falar. Estamos falando porque sabemos disso… Já sabíamos dois ou três anos antes que no dia seguinte às eleições parlamentares (de dezembro)as pessoas diriam que essas eleições não eram legítimas”.
É uma afirmação equivocada ou realmente descrente. E há questão de política externa. Putin foi mesmo útil na ONU não bloqueando a zona de exclusão de voos sobre a Líbia, mas ficou revoltado – pelo fato de que começamos protegendo civis e depois derrubamos seu aliado e cliente na compra de armas, Muamar Kadafi. É verdade.
Mas que aliado! Que coisa para lamentar! E agora, quanto mais Putin apoia a ditadura assassina de Bashar Assad na Síria, mais parece alguém que comprou uma passagem de ida e volta no Titanic – depois que ele já atingiu o iceberg. Assad é um morto vivo. Mesmo que vocês se preocupem apenas com a venda de armas, a Rússia quererá se alinhar com as forças emergentes na Síria? “Na política russa existe uma forte dimensão nacional em relação à Síria”, disse Vladimir Frolov, um especialista em política externa russa. “Se permitirmos que a ONU e os EUA pressionem um regime- que se parece com o nosso – a ceder o poder à oposição, que tipo de precedente isso poderá criar?” Tal abordagem para o mundo não é um bom prenúncio para as reformas no nosso país, acrescentou Frolov. “Putin foi feito para o monólogo”, ele disse. Ele criou “um sistema paternalista, muito personalizado, com base na arbitrariedade”.
Uma reforma real exigirá um amplo reajuste por Putin. Será possível que isso venha a acontecer? Ele compreenderá isso? Pelas evidências atuais, eu diria: de certo modo, mas não realmente. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
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